O livro "comido"
Na pregação para a Casa Pontifícia, tento me orientar, na escolha dos temas,
pelas graças ou pelos eventos especiais que a Igreja vive em um determinado
momento da sua história. Recentemente tivemos a abertura do ano da fé, o
quinquagésimo aniversário do Concílio Vaticano II e o Sínodo sobre a
evangelização e a transmissão da fé cristã. Portanto, pensei fazer no Advento
uma reflexão sobre cada um destes três eventos.
Começo com o ano da fé. Para não me perder em um tema, a fé, que é grande como
o mar, concentro-me em um ponto da carta "Porta Fidei" do Santo
Padre, que exorta encarecidamente a fazer do Catecismo da Igreja Católica (que,
entre outras coisas, celebra este ano o vigésimo aniversário de publicação) o
instrumento privilegiado para viver frutuosamente a graça deste ano. O papa
escreve na sua carta:

“O Ano da Fé deverá exprimir um esforço generalizado em prol da redescoberta e
do estudo dos conteúdos fundamentais da fé, que têm no Catecismo da Igreja
Católica a sua síntese sistemática e orgânica. Nele, de fato, sobressai a
riqueza de doutrina que a Igreja acolheu, guardou e ofereceu durante os seus
dois mil anos de história. Desde a Sagrada Escritura aos Padres da Igreja,
desde os Mestres de teologia aos Santos que atravessaram os séculos, o Catecismo
oferece uma memória permanente dos inúmeros modos em que a Igreja meditou sobre
a fé e progrediu na doutrina para dar certeza aos crentes na sua vida de fé”
(Bento XVI, Carta apost. “Porta fidei”, nº 11)
Não falarei sobre o conteúdo do CIC, das suas divisões, critérios utilizados;
seria como querer explicar a Divina Comédia de Dante Alighieri. O que sim
gostaria é de esforça-me para mostrar como fazer que este livro, de um
instrumento comum, como um violino bem apoiado sobre um pano de veludo, se
transforme num instrumento que soa e faz vibrar os corações. A Paixão segundo
Mateus, de Bach, permaneceu por um século uma partitura escrita, conservada em
arquivos musicais, até que em 1829 Felix Mendelssohn preparou em Berlim uma
execução magistral e a partir daquele dia o mundo soube qual melodia e coro
sublimes estavam contidas naquelas páginas, até então mudas.
São realidades diferentes, é verdade, mas algo parecido acontece com cada livro
que fala da fé, incluindo o CIC: deve-se passar da partitura para a execução,
da página muda para algo vivo que faz vibrar a alma. A visão de Ezequiel da mão
estendida segurando um rolo nos ajuda a entender o que é necessário para que
isso aconteça:
“Eu olhei e vi uma mão estendida para mim, e nela um livro enrolado. Desenrolou-o
diante de mim. Estava escrito na frente e no verso e continha lamentações,
gemidos e ais. Ele me disse: “Filho do homem, come o que tens diante de ti!
Come este rolo e vai falar à casa de Israel”. Eu abri a boca e ele me fez comer
o rolo, dizendo: “Filho do homem, alimenta teu ventre e sacia as entranhas com
este rolo que te dou”. Eu o comi, e era doce como mel em minha boca” (Ez
2,9-3,3)
O Sumo Pontífice é a mão que, neste ano, apresenta de novo à Igreja o CIC,
dizendo para cada católico: “alimenta teu ventre e sacia as entranhas com este
rolo que te dou”. O que significa comer um livro? Não só estudá-lo, analisá-lo,
memorizá-lo, mas fazê-lo carne da própria carne e sangue do próprio sangue,
“assimilá-lo”, como se faz materialmente com a comida que comemos.
Transformá-lo de fé estudada em fé vivida.
Isto não pode ser feito com o volume inteiro do livro, e com todas as pequenas
partes contidas nele. Não é possível fazê-lo analiticamente, mas só
sinteticamente. Explico-me. É necessário captar o princípio que informa e
unifica o todo, enfim o coração palpitante do CIC. E o que é esse coração? Não
é um dogma ou uma verdade, uma doutrina ou um princípio ético; é uma pessoa:
Jesus Cristo! “Repassando as páginas, - escreve o Santo Padre sobre o CIC, na mesma
carta apostólica - descobre-se que o que ali se apresenta não é uma teoria, mas
o encontro com uma Pessoa que vive na Igreja” (Bento XVI, Carta apost. “Porta
fidei”, nº 11).
Se toda a Escritura, como afirma o próprio Jesus, fala dele (cf. Jo 5, 39), se
ela está cheia de Cristo e se resume toda nele, poderia ser diferente para o
CIC que quer ser uma exposição sistemática da mesma escritura, elaborada pela
Tradição, sob a guia do Magistério?
Na primeira parte, dedicada à fé, o CIC lembra o grande princípio de São Tomas
de Aquino de que o “ato de fé do crente não para no enunciado, mas chega na
realidade” (“Fides non terminatur ad enunciabile sed ad rem”, São Tomas de
Aquino, Suma Teológica, II-II, 1,2 ad 2; cit. no CIC n. 170). Bem, qual é a
realidade, a “coisa” última da fé? Deus, é claro! Não, porém, um deus qualquer
que cada um retrata a seu bel prazer, mas o Deus que se revelou em Cristo, que
se “identifica” com ele a ponto de dizer: “Quem me vê, vê o Pai” e “Ninguém
jamais viu a Deus; o Filho único, que é Deus, foi quem o deu a conhecer” (Jo 1,
18).
Quando dizemos fé “em Jesus Cristo” não separamos o Novo do Antigo Testamento,
não começamos a nova fé com a vinda de Cristo à terra. Se fosse assim,
excluiríamos do número dos crentes o mesmo Abraão que chamamos “nosso pai na
fé” (cf. Rm 4, 16). Identificando o seu Pai com “o Deus de Abraão, de Isaac e
de Jacó” (Mt 22, 32) e com o Deus "da lei e dos profetas" (Mt 22,
40), Jesus autenticou a fé judaica, mostrou o caráter profético, afirmando que
é dele que estavam falando (cf. Lc 24, 27. 44; Jo 5, 46). É isso que faz que,
para os cristãos, a fé judaica seja diferente de qualquer outra fé e é isso que
justifica o estatuto especial que tem, depois do Concílio Vaticano II, o
diálogo com os judeus com relação ao diálogo com as outras religiões.
Querigma e didaquê
No começo da Igreja a distinção entre querigma e didaquê era clara. O
querigma, que Paulo chama também de "o evangelho", dizia respeito à
obra de Deus em Cristo Jesus, o mistério pascal de morte e ressurreição, e
consistia em fórmulas breves de fé, como aquela que se deduz do discurso de
Pedro no dia de Pentecostes: “Vós o matastes, pregando-o numa cruz. Mas Deus o
ressuscitou, e o constituiu Senhor” (cf. At 2,23-36), ou também, “Se, pois, com
tua boca confessares que Jesus é Senhor e, no teu coração, creres que Deus o
ressuscitou dos mortos, serás salvo”(Rm 10,9).
A didaquê, por outro lado, tratava do ensinamento que se tinha depois de ter
abraçado a fé, o desenvolvimento e a formação completa do crente. Estavam
convencidos (principalmente Paulo) de que a fé, como tal, só florescia na
presença do querigma. Este não era um resumo da fé ou uma parte dela, mas a
semente que faz crescer todo o resto. Também os 4 Evangelhos foram escritos
depois, justamente para explicar o querigma.
Até mesmo a parte mais antiga do credo falava de Cristo, e esclarecia a dupla
composição, humana e divina. Um exemplo disso está no versículo da Carta aos
Romanos que fala de Cristo “segundo a carne, descendente de Davi, segundo o
Espírito de santidade foi declarado Filho de Deus com poder, desde a
ressurreição dos mortos: Jesus Cristo, nosso Senhor” (Rm 1,3-4). Logo este
núcleo original, ou credo cristológico, foi incorporado em um contexto mais
amplo, como o segundo artigo do símbolo de fé. Nascem, até mesmo por exigências
ligadas ao batismo, os símbolos trinitários que chegaram até nós.
Esse processo é parte do que Newman chama “o desenvolvimento da doutrina
cristã”; é um enriquecimento, não um afastamento da fé original. Cabe a nós
hoje – em primeiro lugar aos bispos, aos pregadores, aos catequistas –
ressaltar o aspecto “a parte” do querigma como momento germinal da fé. Numa
obra lírica, para retomar a imagem musical, há o recitativo e o cantado e no
cantado estão os “agudos” que agitam o auditório e provocam emoções fortes, às
vezes também calafrios. Agora sabemos qual é o agudo de toda catequese.
A nossa situação voltou a ser a mesma que no tempo dos apóstolos. Eles tinham
diante de si um mundo pré-cristão para evangelizar; nós temos diante de nós,
pelo menos até certo ponto, e em alguns ambientes, um mundo pós-cristão para
evangelizar. Devemos voltar para o método deles, trazer à luz "a espada do
Espírito", que é o anúncio, em Espírito e poder, de Cristo morto pelos
nossos pecados e ressuscitado para a nossa justificação (cf. Rm 4,25).
O querigma não é apenas o anúncio de alguns fatos ou verdades de fé claramente
definidas; é também uma certa atmosfera espiritual que pode ser criada dizendo
qualquer coisa, um pano de fundo sobre o qual coloca-se tudo. É
responsabilidade do anunciador, por meio da sua fé, permitir ao Espírito Santo
criar esta atmosfera.
Então, qual é o sentido do CIC? O mesmo do que era na Igreja apostólica a
didaquê: formar a fé, dar-lhe um conteúdo, mostrar-lhe as exigências éticas e
práticas, levar a fé a se tornar “operante na caridade” (cf. Gl 5,6). Isso é
bem destacado em um parágrafo do mesmo CIC. Depois de ter lembrado o princípio
tomista de que “a fé não termina nas fórmulas, mas na realidade”, acrescenta:
“ No entanto, é através das fórmulas da fé que nos aproximamos dessas
realidades. As fórmulas permitem-nos exprimir e transmitir a fé, celebrá-la em
comunidade, assimilá-la e dela viver cada vez mais” (CIC nº 170).
Por isso a importância do adjetivo “católica” no título do livro. A força
de algumas Igrejas não católicas está em colocar tudo no momento inicial, na
chegada na fé, na adesão ao querigma e na aceitação de Jesus como Senhor, visto
como um"nascer de novo”, ou como “segunda conversão". Porém, pode
tornar-se um limite se nos limitamos a isso e tudo continua a girar em torno
disso.
Nós, católicos, temos que aprender algo dessas igrejas, mas temos muito para
dar também. Na Igreja Católica tudo isso é o começo, não o fim da vida cristã.
Depois daquela decisão, abre-se o caminho para o crescimento e a plenitude da
vida cristã e, graças à sua riqueza sacramental, ao magistério, ao exemplo de
muitos santos, a Igreja Católica está em uma posição privilegiada para conduzir
os fiéis à perfeição da vida de fé. O Papa escreve na carta "Porta
Fidei":
“Desde a Sagrada Escritura aos Padres da Igreja, desde os Mestres de teologia
aos Santos que atravessaram os séculos, o Catecismo oferece uma memória
permanente dos inúmeros modos em que a Igreja meditou sobre a fé e progrediu na
doutrina para dar certeza aos crentes na sua vida de fé” (Bento XVI, Carta
apost. “Porta fidei”, nº 11).
A unção da fé
Falei do querigma como do “agudo” da catequese. Mas para produzir este agudo
não basta levantar o tom da voz, se precisa mais do que isso.
“Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor! [esta é, por excelência, a nota aguda!]
a não ser no Espírito Santo" (1 Coríntios 12, 3). O evangelista João faz
uma aplicação do tema da unção que se mostra especialmente atual neste ano da
fé. Escreve:
“Vós recebestes a unção do Santo, e todos vós tendes conhecimento [...] a unção
que recebestes de Jesus permanece convosco, e não tendes necessidade de que
alguém vos ensine. A sua unção vos ensina tudo, e ela é verdadeira e não mentirosa.
Por isso, conforme vos ensinou, permanecei nele” (1 Jo 2, 20.27).
O autor desta unção é o Espírito Santo, como deduzido do fato de que em outros
lugares a função de "ensinar todas as coisas" é atribuída ao
Paráclito como "Espírito de verdade" (Jo 14, 26). É, como vários
Padres escrevem, uma “unção da fé”: “A unção que vem do Santo – escreve
Clemente de Alexandria – se realiza na fé”; “A unção é a fé em Cristo”, diz
outro escritor da mesma escola (Clemente Al. Adumbrationes in 1 Johannis (PG 9,
737B); Homélies paschales (SCh 36, p.40): textos citados por I. de la Potterie,
L’unzione del cristiano con la fede, in Biblica 40, 1959, 12-69).
Em seu comentário, Agostinho faz, a este respeito, uma pergunta para o
evangelista. Porque, diz ele, escreveste a tua carta, se aqueles aos quais te
dirigias, já tinham recebido a unção que ensina todas as coisas e não tinham
necessidade de que alguém lhes instruísse? E aqui está a sua resposta, baseada
no tema do mestre interior:
"O som das nossas palavras atinge o ouvido, mas o verdadeiro mestre está
dentro [...] falei a todos, mas àqueles aos quais a unção não fala, aqueles que
o Espírito não ensina internamente, vão embora sem terem aprendido nada [...].
O mestre é, portanto, interior o mestre que realmente instrui; é Cristo, é a
sua inspiração para ensinar". (S. Agostinho, Commento alla Prima Lettera
di Giovanni 3,13 (PL 35, 2004 s), Tradução nossa).
Portanto, a instrução exterior é necessária. Os mestres são necessários. Mas as
suas vozes só penetram o coração se adicionada aquela interior do Espírito. “E
disso somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus concedeu àqueles que
lhe obedecem" (At 5,32). Com estas palavras, pronunciadas diante do
Sinédrio, o Apóstolo Pedro não só afirma a necessidade do testemunho interior
do Espírito, mas também indica qual é a condição para recebê-la: a
disponibilidade para obedecer, para submeter-se à Palavra.
É a unção do Espírito que faz passar dos enunciados de fé à sua realidade. Um
tema caro ao evangelista João é aquele do crer que é também conhecer: “E nós,
que cremos, reconhecemos o amor que Deus tem para conosco” (1 Jo 4,16).
"Nós cremos e reconhecemos que tu és o Santo de Deus" (Jo 6, 69).
"Conhecer", neste caso, como no geral em toda a Escritura, não
significa o que significa para nós hoje, ou seja, ter a ideia ou o conceito de
uma coisa. Significa experimentar, entrar em relação com a coisa ou com a
pessoa. (Cf. C.H. Dodd, L’interpretazione del Quarto Vangelo, Brescia,
Paideia1974, pp. 195 s.). A afirmação da Virgem: "Não conheço homem",
não queria dizer que não sabia o que era um homem...
Foi um caso de evidente unção da fé aquele que Pascal experimentou na noite do
dia 23 de novembro de 1654 e que colocou em breves frases exclamativas em um
escrito encontrado depois da morte costurado dentro de sua jaqueta:
"Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó, não dos filósofos e dos
estudiosos. Certeza. Certeza. Sentimento. Alegria. Paz. Deus de Jesus Cristo
[...]. Ele é encontrado somente pelo caminho do Evangelho. [...]. Alegria,
alegria. Alegria, lágrimas de alegria. [...] E isso é a vida eterna, que te
conheçam a ti, único Deus verdadeiro e aquele que enviaste: Jesus Cristo"(
B. Pascal, Memoriale, ed. Brunschvicg. Tradução nossa).
A unção da fé acontece geralmente quando, em uma palavra de Deus ou em uma
afirmação de fé, cai subitamente a iluminação do Espírito Santo, acompanhada
normalmente por uma forte emoção. Lembro-me que um ano, na festa de Cristo Rei,
escutava na primeira leitura da Missa a profecia de Daniel sobre o Filho do
Homem:
" Em imagens noturnas tive esta visão: Entre as nuvens do céu vinha alguém
semelhante a um filho do homem. Chegou até perto do ancião, e foi levado à sua
presença. Foi-lhe dada a soberania, a glória e a realeza. Todos os povos, nações
e línguas hão de servir-lhe. Seu poder é um poder eterno, que nunca lhe será
tirado e sua realeza é tal, que jamais será destruída!” (Dn 7,13-14).
Sabe-se que o Novo Testamento viu realizada a profecia de Daniel em Jesus; ele
mesmo diante do sinédrio a faz própria (cf. Mt 26, 64); uma frase do texto
entrou até mesmo no credo (“cuis regnum non erit finis”). Eu sabia, pelos meus
estudos, tudo isso, mas naquele momento era uma outra coisa. Era como se a cena
acontecesse ali, diante dos meus olhos. Sim, aquele filho do homem que avançava
era ele, Jesus. Todas as dúvidas e explicações alternativas dos estudiosos, que
também conhecia, pareciam-me, naquele momento, simples pretextos para não crer.
Experimentava, sem saber, a unção da fé.
Em outra ocasião (acho que já compartilhei essa experiência no passado, mas que
ajuda a entender) participava da Missa de Meia Noite presidida pelo Papa João
Paulo II em São Pedro. Chegou a hora do canto da Kalenda, ou seja, a
proclamação solene do nascimento do Salvador, presente no antigo Martirológio e
reintroduzida na liturgia do Natal depois do Vaticano II:
"Transcorridos muitos séculos desde que Deus criou o mundo...
Treze séculos depois da saída de Israel do Egito...
Na nonagésima quarta Olimpíada...
No ano 752 da fundação de Roma...
No quadragésimo segundo ano do império de César Otaviano Augusto,
Jesus Cristo Deus eterno e Filho do Eterno Pai, querendo santificar o mundo com
a sua vinda, foi concebido por obra do Espírito Santo e se fez homem;
transcorridos nove meses nasceu da Virgem Maria em Belém de Judá".
Quando cheguei nessas últimas palavras senti uma repentina clareza interior, e
me lembro que dizia para mim mesmo: “É verdade! Tudo isso que se canta é
verdade! Não são só palavras. O eterno entra no tempo. O último evento da série
rompeu a série; criou um "antes" e um "depois"
irreversíveis; o cálculo do tempo que antes acontecia com relação a diferentes
eventos (Olimpíada tal, reino tal), agora acontece com relação a um único
evento”: antes dele, depois dele. Uma comoção súbita me atravessou toda a
pessoa, enquanto podia somente dizer: “Obrigado, Santíssima Trindade, e
obrigado também a vós, Santa Mãe de Deus!”.
A unção do Espírito Santo também produz um efeito, por assim dizer,
"colateral" no anunciador: faz que ele experimente a alegria de
proclamar Jesus e o seu Evangelho. Transforma a evangelização de tarefa e
dever, numa honra e num motivo de orgulho. É a alegria que conhece bem o
mensageiro que chega a uma cidade sitiada dizendo que sítio foi tirado. Ou o
aralto que na antiguidade corria na frente para levar ao povo o anúncio de uma
vitória decisiva obtida no campo do próprio exército. A “boa notícia”, antes
mesmo de quem a recebe, faz feliz quem a traz.
A visão de Ezequiel, do rolo comido, realizou-se uma vez na história em sentido
também literal e não apenas metafórico. Foi quando o livro das palavras de Deus
esteve contido em uma única Palavra, o Verbo. O Pai o levou à Maria; Maria o
acolheu, encheu, também fisicamente, as vísceras, e depois o deu ao mundo, o
“pronunciou” dando-lhe a luz. Ela é o modelo de todo evangelizador e de todo
catequista. Nos ensina a encher-nos de Jesus para dá-lo aos outros. Maria
concebeu Jesus “por obra do Espírito Santo” e assim deve ser também com cada
anunciador.
O Santo Padre conclui sua carta de convocação do ano da fé com uma referência à
Virgem: "Confiamos, escreve, à Mãe de Deus, proclamada “beata” porque
“acreditou” (Lc 1, 45), este tempo de graça" (“Porta fidei”, nº 15.).
Peçamos a Ela a graça de experimentar, neste ano, muitos momentos de unção da
fé. "Virgo fidelis, ora pro nobis”. Virgem fiel, rogai por nós.
Primeira Pregação do Advento 2012 do Padre Raniero Cantalamessa, OFM Cap
Fonte: Zenit.org