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segunda-feira, 23 de julho de 2012

O Que é o Credo?


Desde o início de sua vida apostólica, a Igreja elaborou o que passou a ser chamado de “Símbolo dos Apóstolos”, cujo nome é o resumo fiel da fé dos apóstolos; foi uma maneira simples e eficaz de a Igreja exprimir e transmitir a sua fé em fórmulas breves e normativas para todos. Em seus doze artigos, o 'Creio' sintetiza tudo aquilo que o católico crê. Este é como "o mais antigo Catecismo romano". É o antigo símbolo batismal da Igreja de Roma. Os grandes santos doutores da Igreja falaram muito do 'Credo'. Santo Ireneu (140-202), na sua obra contra os hereges gnósticos, escreveu: "A Igreja, espalhada hoje pelo mundo inteiro, recebeu dos apóstolos e dos seus discípulos a fé num só Deus, Pai e Onipotente, que fez o céu e a terra (...).Esta é a doutrina que a Igreja recebeu; e esta é a fé, que mesmo dispersa no mundo inteiro, a Igreja guarda com zelo e cuidado, como se tivesse a sua sede numa única casa. E todos são unânimes em crer nela, como se ela tivesse uma só alma e um só coração. Esta fé anuncia, ensina, transmite como se falasse uma só língua.  (Adv. Haer.1,9)

São Cirilo de Jerusalém (315-386), bispo e doutor da Igreja, disse: "Este símbolo da fé não foi elaborado segundo as opiniões humanas, mas da Escritura inteira, de onde se recolheu o que existe de mais importante para dar, na sua totalidade, a única doutrina da fé. E assim como a semente de mostarda contém, em um pequeníssimo grão, um grande número de ramos, da mesma forma este resumo da fé encerra, em algumas palavras, todo o conhecimento da verdadeira piedade contida no Antigo e no Novo Testamento (Catech. ill. 5,12)

Santo Ambrósio (340-397), bispo de Milão, doutor da Igreja que batizou Santo Agostinho, mostra de onde vem a autoridade do 'Símbolo dos Apóstolos', e a sua importância:
"Ele é o símbolo guardado pela Igreja Romana, aquela onde Pedro, o primeiro dos apóstolos, teve a sua Sé e para onde ele trouxe a comum expressão da fé" (CIC §194)."Este símbolo é o selo espiritual, a mediação do nosso coração e o guardião sempre presente; ele é seguramente o tesouro da nossa alma” (CIC §197). Os seus doze artigos, segundo uma tradição atestada por Santo Ambrósio, simbolizam com o número dos apóstolos o conjunto da fé apostólica (cf. CIC §191).

O símbolo da fé, o 'Credo', é a “identificação” do católico. Assim, ele é professado solenemente no dia do Senhor, no batismo e em outras oportunidades. Todo católico precisa conhecê-lo com profundidade.

Por causa das heresias trinitárias e cristológicas que agitaram a Igreja nos séculos II, III e IV, ela foi obrigada a realizar concílios ecumênicos (universais) para dissipar os erros dos hereges. Os mais importantes para definir os dogmas básicos da fé cristã foram os Concílios de Nicéia (325) e Constantinopla I (381). O primeiro condenou o arianismo, de Ário, sacerdote de Alexandria que negava a divindade de Jesus; o segundo condenou o macedonismo, de Macedônio, patriarca de Constantinopla que negava a divindade do Espírito Santo.

Desses dois importantes Concílios originou-se o 'Credo' chamado "Niceno-constantinopolitano", o qual traz os mesmos artigos da fé do 'Símbolo dos Apóstolos', porém de maneira mais explícita e detalhada, especialmente no que se refere às Pessoas divinas de Jesus e do Espírito Santo.

Além desses dois símbolos da fé mais importantes, outros 'Credos' foram elaborados ao longo dos séculos, sempre em resposta a determinadas dificuldades ou dúvidas vividas nas Igrejas Apostólicas antigas. Um exemplo é o símbolo “Quicumque”, dito de Santo Atanásio (295-373), bispo de Alexandria; as profissões de fé dos Concílios de Toledo, Latrão, Lião, Trento e também de certos Pontífices como a do Papa Dâmaso e do Papa Paulo VI (1968).

O Catecismo da Igreja nos diz que: "Nenhum dos símbolos das diferentes etapas da vida da Igreja pode ser considerado como ultrapassado e inútil. Eles nos ajudam a tocar e a aprofundar, hoje, a fé de sempre por meio dos diversos resumos que dela têm sido feitos" (CIC § 193).

O Papa Paulo VI achou oportuno fazer uma solene Profissão de Fé no encerramento do “Ano da Fé” de 1968. O Papa Paulo VI quis colocá-lo como um farol e uma âncora para a Igreja caminhar nos tempos difíceis que vivemos, por entre tantas falsas doutrinas e falsos profetas, que se misturam sorrateiramente como o joio no meio do trigo, mesmo dentro da Igreja.

Paulo VI falou, na época, daqueles que atentam “contra os ensinamentos da doutrina cristã”, causando “perturbação e perplexidade em muitas almas fiéis”. Preocupava o Papa as “hipóteses arbitrárias” e subjetivas que são usadas por alguns, mesmo teólogos, para uma interpretação da revelação divina, em discordância da autêntica interpretação dada pelo Magistério da Igreja.

Sabemos que é a Verdade que nos leva à salvação (cf. CIC §851). São Paulo fala da “sã doutrina da salvação” (2 Tm 4,7) e afirma que “Deus quer que todos se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4); e “a Igreja é a coluna e o fundamento da verdade” (1Tm 3,15).

Prof. Felipe Aquino
Comunidade Canção Nova

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Saudades da Bíblia!




Outro dia estava me lembrando dos velhos tempos. Lá para vinte e cinco anos atrás, bota velho nisso! Pois é: naquele tempo, a gente costumava carregar a Bíblia para onde ia. Ia à escola? Conosco ia a Bíblia. Ia à Missa? Bíblia na mão! Ia ao cabeleireiro, ao ‘mercantil’? A companhia da Bíblia era indispensável. A Bíblia ia para as visitas à família, para a casa da sogra, para a conversa com o chefe, para a merenda – não se dizia ‘lanche’, pois nao havia lanchonetes, exceto nas Lojas Brasileiras, no centro. A Bíblia ia a todo lugar.

Nos grupos de oração, encontros, pregações (não se admitia a palavra ‘palestra’), aí, então, é que a Bíblia aparecia mesmo. E aí, naturalmente, ela tomava destaque especial. Era o centro das conversas, às vezes santas, às vezes santas só na aparência:
- Imagine que no ônibus perguntaram se eu era crente...
- Ih! Acontece comigo todos os dias, mas aí eu aproveito e... tome conversa sobre o senhorio de Jesus!
- E não foi o que fiz? Logo que a senhora me perguntou, aproveitei a deixa e falei até chegar minha parada! No final, acabei rezando por ela ali mesmo.
- Pois é, ninguém pode perder a chance! Só porque a gente está com Bíblia na mão pensam que a gente é crente! Precisamos mostrar que católico também lê a Bíblia.

Ter uma Bíblia católica, porém, não era tão fácil como hoje. Era preciso arriscar encontrar uma em uma livraria do centro da cidade. Quando se conseguia uma era uma festa, motivo de exibicionismo geral. Eram Bíblias grandes, grossas, uns quatro dedos de largura. Quando novas eram exibidas como um troféu. Porém, prestígio mesmo ganhavam quando estavam muito, mas muito usadas mesmo, a capa marcada, rota, cheia de ranhuras. Era sinal de muito uso, de muito serem carregadas, mas nem sempre de muita leitura. O sinal da leitura estava, mesmo, era dentro, onde a história de Noé parecia se derramar em um perene arco-íris: vermelho para as ordens de Deus; verde para as Suas promessas; azul para as verdades eternas e amarelo para as advertências. Isso fazia com que, no mais das vezes, a Bíblia fosse acompanhada de uma indefectível bolsinha com lápis de cores. Afora o arco-íris, havia ainda as observações escritas, os versículos copiados para serem melhor lembrados, os versículos de referência que, não vindo impressos, descobríamos e anotávamos com orgulho, como ‘exímios exegetas’. Bons velhos tempos, aqueles! Bons e simplórios papos:

- Hoje terminei de ler a Bíblia pela quinta vez!
- (silêncio de profunda admiração)
- Vocês nem imaginam o que senti! Foi uma bênção do Senhor (usava-se as palavras ‘bênção’ e ‘Senhor’ preferencialmente às palavras ‘graça’ e ‘Deus’).
- Eu ainda estou na segunda vez, retrucava o outro, humildemente, para logo ser socorrido por um terceiro:
- É, mas você fez o seminário quando?
- Há um ano, mais ou menos.
- Então!?! Ler duas vezes em um ano já é muito! Ouvi dizer que a média é uma vez por ano se você ler quatro capítulos por dia...

Bons velhos tempos! Mas bom mesmo era que conhecíamos de cor todas as passagens que se referiam à Palavra: ‘espada de dois gumes’, ‘penetra até a medula, até as junturas, entre as articulações’, ‘é a verdade, e a verdade liberta’, ‘luz para os nossos passos’, ‘espada da fé’, ‘comida amarga que se torna doce’. Colecionávamos testemunhos de como a Palavra corrige, restaura, alimenta. E lá íamos nós, para cima e para baixo, Bíblia debaixo do braço, embalados pelas primeiras canções do Pe. Zezinho, a anunciar o Evangelho, ‘ao cair da tarde, sem muito – nem tanto! – alarde’.

No mês de setembro, era uma verdadeira competição: todos queriam fazer ou dar cursos sobre a Bíblia e o último domingo, o ‘Dia da Bíblia’, era data importante, comemorada com alegria e gratidão. As pregações eram invariavelmente baseadas em uma passagem bíblica e havia competições veladas de quem sabia mais versículos de cor, com a devida referência, claro.

A Bíblia era usada para tudo: oração, discernimentos, orientações, aconselhamento. Ainda se abria a Bíblia para pedir a Deus a confirmação de uma profecia, de uma palavra de ciência ou sabedoria. Direcionava-se ou redirecionava-se uma oração comunitária inteira, retiros e encontros por causa de uma ‘palavra’ tirada da Bíblia. Recomeçava-se um discernimento já praticamente fechado quando se tinha um direcionamento novo através da Palavra. Orava-se com a Bíblia no início de cada reunião. Bons velhos tempos!

Passam-se os setembros e cá estamos nós, a escrever estas Entrelinhas, cheios de saudade. Nos setembros de hoje, na pregação, pedimos que abram as Bíblias para descobrir que ninguém as trouxe. Referimo-nos a uma passagem que todos deveriam conhecer de cor, mas ninguém jamais ouviu falar. Preparamos todo um encontro sobre um tema bíblico e, logo na primeira palestra, percebemos que todos o desconhecem. Falamos de ‘estudo bíblico’ e as pessoas pensam que nos referimos a uma cadeira da faculdade de teologia. Referimo-nos à Lectio Divina e logo pensam que estamos usando línguas estranhas. Saudade, saudade, saudade!

É. Saudade! Saudade acompanhada de tristeza, perplexidade. ‘Crescemos’, dizem alguns. ‘Não precisamos mais nos exibir com as Bíblias debaixo do braço por toda a parte’. Será mesmo assim? Certamente havia um certo exibicionismo, uma certa tentação de vaidade, de auto-afirmação. Mas, de uma forma ou de outra, na bela ingenuidade típica dos princípios, lia-se a Bíblia, orava-se com a Bíblia, conhecia-se a Bíblia, amava-se a Bíblia. Ela era luz para nossa conduta moral, pessoal, familiar, comunitária. Saudades!

Para infelicidade nossa, os nossos braços e mãos, agora ‘livres’ da Bíblia carregada para todo o lado, mais do que o talvez ingênuo glamour dos começos, não teriam perdido o ardor apaixonado que nos fazia ter o nome e o poder do Verbo no coração e nos lábios? Saudades!

Emmir Nogueira
Co-Fundadora da Comunidade Católica Shalom