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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O Que é o Combate Espiritual?

São Paulo compara o cristão com um soldado
 
 O ministério de libertação é uma força de apoio ao combate espiritual a que todo cristão é chamado a viver. Precisamos conhecer esse combate na vida e nas palavras de Jesus.
 
O Mestre sofreu tentações antes de começar Sua vida pública: cobiça, vaidade e orgulho! Venceu esses males e nos ensinou a pedir: Pai, não nos deixeis cair em tentação, MAS LIVRAI-NOS DO MAL. O Pai-Nosso é a principal oração de libertação. O Apóstolo Paulo falou muito de Combate Espiritual. O texto mais eloquente sobre esse tema está em Efésios 6,10-17: armadura do cristão. Cada versículo desse texto deve ser meditado com muita atenção.
 
A armadura de Deus é Jesus. Precisamos nos revestir de Cristo para estar a salvo dos ataques do inimigo. Isso significa permitir que o “homem novo” vá crescendo em nós, até o ponto de podermos dizer: já não sou eu que vivo, Cristo vive em mim.
 
Estar revestido de Cristo significa sentir como Ele sentia, fazer o que Ele fazia, falar como Ele falava, agir como Ele agia. É colocar a vontade amorosa de Deus como princípio e centro da nossa vida.
 
A Eucaristia é a expressão maior desse revestir-se de Cristo. É o melhor refúgio. Precisamos estar conscientes de que o inimigo de Deus existe e age. A Igreja afirma claramente que o demônio existe. Mas não é tão poderoso assim… é criatura, age só com a permissão de Deus.
 
É interessante conhecer as estratégias do maligno para que possamos resistir “no dia mau”, ou seja, na “hora H”. Santo Inácio de Loyola, com suas “regras de discernimento” nos ensina com sabedoria a perceber a voz do Espírito Santo, distinguindo-a da sedutora cantinela do inimigo.
 
Ao final do seu texto São Paulo compara o cristão com um soldado pronto para a guerra:
 
· o cinturão da verdade: Lembre-se de que o inimigo é o pai da mentira. É o príncipe das trevas. Portanto, não resiste à luz e à verdade. O Sacramento da Confissão é uma luz de verdade que deve ser utilizado como estratégia contra ele.
 
· a couraça da justiça: bastaria lembrar a Campanha da Fraternidade destes dois últimos anos. Justiça e Paz se abraçarão.
 
· calçado da prontidão para anunciar o Evangelho da Paz: a Nova Evangelização é uma estratégia de libertação. Quando nos fechamos em nós mesmos estamos à mercê dos ataques… mas quando nos colocamos a caminho…
 
· o capacete da salvação: na cabeça, um critério muito seguro que distingue as verdadeiras das falsas doutrinas: Jesus é o Salvador.
 
· a Espada do Espírito: é a Palavra de Deus, nosso instrumento de libertação.
 
QUESTÕES PARA REFLEXÃO PESSOAL
 
1. Conheço algo do Combate Espiritual na vida dos Santos? (Santo Agostinho, Antão, Bento…)
 
2. Já tive a curiosidade de pesquisar esse tema no Catecismo da Igreja Católica?
 
3. Conheço algum outro texto da Bíblia que frequentemente me anima no combate?
 
4. Tenho um diretor espiritual, ou, pelo menos, um confessor?
 
5. Tenho um projeto pessoal de vida? Escrito? Tenho metas? Ou meu combate consiste apenas em resolver problemas!?
 
 
Padre Joãozinho, SCJ
 
Oração de Combate Espiritual:
 
Oração de São Miguel Arcanjo
(pequeno exorcismo de São Leão XIII que deve ser rezado diariamente.)
 
São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate, sede nosso refúgio contra as maldades e ciladas do demônio! Ordene-lhe Deus, instantemente o pedimos; e vós, Príncipe da Milícia Celeste, pelo poder Divino, precipitai ao inferno a satanás e a todos os espíritos malignos que andam pelo mundo para perder as almas. Amém

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Distrações na Oração



O Beato João Paulo II, na carta "No início do novo milênio", convidou toda a Igreja a tomar consciência de que não pode existir experiência de Deus, nem apostolado autêntico, nem amor fraterno, nem uma humanidade unida na construção da civilização do amor sem a oração. 

Para que possamos fazer algo bom dentro e fora de nós, para que possamos produzir frutos abundantes na videira que é Cristo, precisamos entrar na plena comunhão com Ele. Repetimos várias vezes que a oração não é uma imposição, uma lei que nos obriga e escraviza, mas uma necessidade, uma urgência do coração que, sentindo-se solitário, exilado, incompreendido, busca ansiosamente um amigo que o possa amar e escutar. Na oração, Deus e o homem se amam reciprocamente, e um fica feliz de se contemplar no outro. Deus se contempla no homem criado à sua imagem e semelhança, e o homem se contempla em Deus, vendo a que é chamado a ser.

A oração nos liberta de todos os nós, permite-nos levantar vôo. Santa Teresa de Ávila diz que somos chamados, como a pombinha branca, a alçar vôo para Deus, a entrar, vencendo todos os obstáculos, no castelo interior; e a porta pela qual entramos neste castelo é a oração. 

Quando nos decidimos a rezar é porque nos encontramos em dificuldades e não sabemos como sair delas sozinhos, ou estamos tomados por uma alegria tão grande que não podemos fazer outra coisa senão gritar aos sete ventos: "Obrigado, Senhor". É algo maior do que nós. Os indiferentes, os insensíveis, os que se sentem bem com o "rastejar" e não desejam voar e ultrapassar o azul do céu para estar com o Senhor, nunca serão grandes orantes.

Mas, se rezar é tão bom - como dizem os místicos, os santos, os homens e mulheres que gastaram a vida toda procurando o rosto do Amado -, por que para nós há momentos em que a oração se faz difícil? Quais são as dificuldades maiores que encontramos na oração e como superá-las? Para vencer as dificuldades é necessário, antes de mais nada, ter muita confiança em Deus e pouca em nós. É ter consciência de que o Senhor nos dará a alegria de estar com Ele. Ele, como Pai amoroso, alegra-se quando nos vê lutando contra os inimigos que nos impedem de amá-lo e adorá-lo.

Não ter medo do fracasso

Todas as coisas têm as cores com que nós as pintamos; dependem do olhar com que as contemplamos. Para o pessimista, tudo vai mal; para o otimista, quase tudo vai bem. 

Nossa oração é sempre atendida por Deus. Mesmo quando parece que não, Ele nos escuta e, na sua infinita sabedoria, nos dá o que necessitamos para o nosso crescimento. Somente Deus sabe do que realmente precisamos, e jamais Ele fecha o ouvido aos nossos gritos e súplicas. Quantas vezes na minha vida, quando era mais jovem, achei que Deus se "divertia", quase com um certo "sadismo", negando-me o que eu lhe pedia com tanta insistência. Mas, com o passar do tempo, sendo amadurecido ao sol do sofrimento e da experiência, fui vendo que Deus age de forma diferente. Fui me lembrando das palavras do profeta Isaías: "Os meus caminhos não são os vossos caminhos'; ou de Jesus: "O Pai sabe do que vocês necessitam antes que vocês peçam".

Ser confiante no amor misericordioso de Deus é deixar a Ele a liberdade de agir em nossa vida. Uma liberdade que sempre é colocada a serviço do ser humano. A oração, recorda-nos o Catecismo, é um verdadeiro combate. Uma vigilância perene sobre nós mesmos para não deixarmos entrar no coração os sentimentos que impedem o nosso encontro filial com Deus.

"Enfim, nosso combate deve enfrentar aquilo que sentimos como nossos fracassos na oração: desânimo diante de nossa aridez, tristeza por não ter dado tudo ao Senhor, por ter "muitos bens", decepção por não ser atendidos segundo nossa vontade própria, insulto ao nosso orgulho (o qual não aceita nossa indignidade de pecadores), alergia à gratuidade da oração etc. A conclusão é sempre a mesma: para que rezar? Para superar esses obstáculos é preciso lutar para ter a humildade, a confiança, a perseverança" (Cat, 2728).

Diante de tudo isto é bom nos convencermos de que a oração exige esforço nosso. Todo diálogo, para ser construtivo, vai exigindo uma constante atenção ao que acontece dentro de nós. Orar é abrir o nosso humano para que o divino possa entrar. Nunca devemos destruir a nossa sensibilidade, a nossa humanidade, mas torná-la mais atenta e aberta à ação de Deus em nós.

A alegria de ser distraído

Ensinaram-nos a considerar as distrações como a maior dificuldade da nossa vida de oração, a vê-las como "marimbondos" que não nos deixam tranqüilos quando queremos estar a sós com aquele que amamos, um empecilho no diálogo, no amor e na vida. Ser distraído foi considerado como algo desrespeitoso por aquilo que estamos fazendo. Diante desta dificuldade comum em todos nós devemos, sem dúvida, redimensionar a nossa atitude frente às distrações na vida de oração. 

É preciso tomar consciência de que não somos distraídos somente na oração, mas em todas as atividades. Quantas vezes estamos diante da TV, mas o nosso coração, fantasia e pensamento estão tão distantes que perguntamos a alguém: "De que este programa está falando?" Ou quem de nós não se "pegou distraído" no trânsito a ponto de entrar numa rua errada? Ou ainda, durante o estudo leu cinco páginas e nada reteve na memória porque estava distraído... A distração, portanto, faz parte da nossa humanidade. Ninguém consegue pensar horas a fio no mesmo assunto e argumento. O ser humano é volúvel, tem necessidade de voar a tantos lugares, pensar em muitas coisas ao mesmo tempo... Como a abelha vai de flor em flor e, sem parar em nenhuma, vai sugando o néctar para sua vida pessoal e comunitária.

Ser distraído pode ser considerado não como um mal, mas como uma forte intuição do amor. Às vezes, pode ser o Espírito Santo querendo recordar-nos algo importante. Quem sabe você está rezando e, de imediato, vem-lhe o pensamento de que se esqueceu de desligar o gás da cozinha... Santa distração, que leva a correr e a evitar o perigo! Ou se rezando se "distrai" pensando nos pais, nos trabalhos, nas dificuldades, na falta de amor, nas pessoas... É o momento para você colocar tudo no coração de Deus e transformar essas distrações em motivações orantes para sua vida.

Diante das distrações, temos duas opções: assumir a nossa situação e o que nos vem à mente, ao coração, e fazer de tudo isso oração a ser apresentada a Deus, que é o melhor caminho; ou "chamar de volta" a nossa memória, a nossa atenção ao que estamos meditando. Este constante esforço é agradável ao Senhor porque manifesta o nosso amor e a nossa decisão de estarmos atentos à voz do Espírito.
É bom não perder tempo com as distrações, não se deixar atrair por elas, mas saber administrá-las com paciência e alegria. Quanto menos importância lhes damos, menos elas nos perseguem. Esta sabedoria é própria dos santos e de quem quer ser santo. "Pensar", nos adverte Teresa de Ávila, "o que estamos dizendo e a quem o estamos dizendo. Não seria justo falar com uma pessoa pensando em outras coisas ou com o olhar distante, como quem está cansado da presença do amigo".

Esta sabedoria está presente na pedagogia da Igreja que, no Catecismo, nos recorda: "A dificuldade comum de nossa oração é a distração. Esta pode referir-se às palavras e ao seu sentido, na oração vocal. Pode, porém, referir-se mais profundamente àquele a quem oramos, na oração vocal (litúrgica ou pessoal), na meditação e na oração mental. Perseguir obsessivamente as distrações seria cair em suas armadilhas, já que é suficiente o voltar ao nosso coração: uma distração nos revela aquilo a que estamos amarrados, e essa tomada de consciência humilde diante do Senhor deve despertar nosso amor preferencial por Ele, oferecendo-lhe resolutamente nosso coração, para que Ele o purifique. Aí se situa o combate: a escolha do senhor a quem servir. Positivamente, o combate contra nosso "eu" possessivo e dominador é a vigilância, a sobriedade do coração" (Cat, 2729-2730).

Quando percebemos que estamos "voando por aí", devemos aprender a voltar "ao assunto" e não permitir que alguém nos distraia do amor que devemos doar ao Amado. "Eu dormia, mas meu coração velava"...
Quem vive na tensão do amor será sempre como Maria, que "guardava todas estas coisas no seu coração e as meditava".
As distrações, as fantasias são as loucas da casa e por isso é preciso aprender a recolhê-las quando querem ir mais longe do que lhes é permitido. Superar as distrações é um exercício. Nunca chegaremos a evitá-las plenamente. Somente com uma graça especial do Senhor ou um êxtase ou uma visão, quando todas as nossas potências estão suspensas. Enquanto estivermos por aqui mesmo é preciso saber colocar, como nos diz o salmista, "freio e cabresto" às fantasias e distrações para que não nos levem longe do nosso Amado. É preciso dominar, administrar as distrações sem violência. O segredo é que, segundo a intensidade do amor que arde no nosso coração, estaremos mais atentos e fiéis ao amor do nosso Deus. 

No passado eu ficava nervoso, inquieto, desanimado diante das distrações da minha vida. Hoje, quem desanima são as distrações, porque sabem que, quando batem à minha porta, na maioria das vezes, a encontram fechada. 

É necessário vencer as distrações com a força do amor. Mas, se elas vierem, convém aproveitar o que trazem, reciclar tudo isso e transformar em oração. Mesmo quando as distrações trazem à memória o pecado, que é como lixo, é preciso lembrar que o lixo reciclado gera energia e força. Reciclar as distrações é fazê-las passar pelo coração de Deus. Que o texto do apóstolo Paulo possa nos servir como exemplo: "Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? ... Mas, em tudo isso vencemos por aquele que nos amou" (Rm 8,35-37).
Nada pode nos separar do amor de Cristo. Nem as distrações, mágoas ou pensamentos inúteis; nada nem ninguém, porque Cristo é nosso e somos dele.

"...O intelecto não se fixa em nada, parece frenético, de tal maneira está descontrolado. Quem assim está verá, devido ao sofrimento que lhe sobrevem, que não é culpado por isso. Não deve afligir-se, porque é pior, nem se cansar em querer trazer à razão quem não a tem, isto é, seu próprio intelecto; reze como puder... De nossa parte, o que podemos fazer é procurar ficar a sós, e queira Deus que isso baste, como eu digo, para que entendamos com quem estamos e a resposta que o Senhor dá aos nossos pedidos. Pensais que Ele está calado? Mesmo que não o ouçamos, Ele nos fala ao coração quando de coração lhe pedimos" (Santa Teresa)


Frei Patrício Sciadini, OCD

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Vocação, Uma História de Amor


A vocação, no sentido religioso, é a “inspiração ou moção interior pela qual Deus chama uma pessoa a determinado estado ou forma de vida”(1). Ela difere da aptidão para exercer determinada profissão justamente por ser um chamado que brota do mais profundo do ser, ali de onde se escuta e se responde à voz de Deus. 

Diferente dos compromissos profissionais e sociais, que mesmo quando firmados numa fortíssima aptidão participam da instabilidade do ser humano, a vocação como chamado e resposta a Deus é definitiva, irreversível, dura a vida toda. Livre e definitivamente Deus chama, mas também livre e definitivamente devemos dizer “sim”, manifestando cada dia mais profundamente esta afirmação. Deus nos escolhe e nós escolhemos Deus, cada dia mais fortemente. “Como a vida matrimonial não se reduz à primeira declaração de amor nem ao tempo de noivado, assim a vocação é uma história de amor, que deve durar a vida inteira”(2). 

Para tentarmos compreender um pouco do que seja esta “história de amor”, precisamos entrar mais profundamente no sentido da existência humana. A Sagrada Congregação para a Doutrina da fé ensina que “O amor é a vocação fundamental do ser humano”(3). Cada um de nós nasce do Amor, vive do Amor e caminha para o Amor, que é Deus. 

Cada um de nós nasce e permanece na existência unicamente por causa do amor livre e gratuito de Deus, que nos chamou à vida. O amor de Deus é a nossa origem e é também a finalidade da existência. Cada um de nós nasce de Deus e para Deus, que é o Amor por excelência, do qual nossos maiores amores nesta vida são apenas uma pálida imagem. 

Nascido do Amor e para o Amor, cada um de nós é mantido na existência pelo Amor. Caminhamos para o nosso fim, mesmo sem perceber, continuamente “mergulhados” no “oceano” do amor de Deus que sustenta a cada dia nosso caminho. Somos à imagem de Deus que ama continuamente, sem cessar. Então o amor não é somente nossa origem e nosso fim, mas o nosso caminho, o único meio de caminhar para o nosso objetivo. 

Nosso caminho é o Amor. Somos fundamentalmente chamados para amar, para refletirmos a imagem e semelhança de Deus no mundo... amando, sendo “amor” como Santa Teresinha do Menino Jesus tão concretamente descobriu em sua própria vida, pela experiência, e por isso encontrou e viveu plenamente sua vocação particular na Igreja. 

É dentro deste chamado primeiro e fundamental ao Amor, que nascem todas as vocações religiosas e estados de vida, porque é do chamado fundamental ao Amor que decorre o nosso chamado a ser e a realizar algo no mundo. 

O Catecismo da Igreja Católica ensina que “a vocação última do homem é uma só, divina”(4). Cada um de nós responde primeiramente esta vocação pelo Batismo, e a realiza segundo estados e funções diversas, conforme o chamado único, particular de Deus a nós. Para cada pessoa há um chamado singular e insubstituível no universo e na história, que foi fixado pelo projeto de Deus que sempre vai muito além dos nossos próprios projetos, e cuja realização vai tão além da nossa capacidade humana, que jamais poderíamos concretizá-lo sem que Ele nos capacite. 

Cada pessoa tem uma identidade única e todo chamado vocacional atinge esta identidade. O chamado de cada pessoa acontece no contexto particular da sua história, onde Deus entra em um diálogo íntimo com ela, um diálogo de amor, que vai durar a vida toda, porque nenhuma vocação se encerra somente no chamado. Toda vocação nos leva a amar sempre mais. 

Somente Deus pode arrogar-se o direito de nos propor um destino que toca a nossa vida toda. Somente Deus tem esta força imperiosa capaz não somente de nos atrair, mas de capacitar-nos a dizer sim e perseverar neste chamado por toda a nossa vida, não estaticamente, mas crescendo no nosso “sim” a cada desafio sempre maior. 

Da mesma forma, somente a pessoa chamada pode, livremente, acolher o chamado, e se dispor a ir aonde a força do chamado a atrai e impele a concretizá-lo. Por isso, na vocação, tanto o chamado como a resposta são de fundamental importância. Não podemos criar um chamado que Deus não nos fez, e, do mesmo modo, ninguém pode responder ao chamado por nós a não ser nós mesmos, que, livremente escolhidos, livremente podemos dizer “sim”. 

Como acontece o chamado? 

A vocação é puro dom de Deus que excede a inclinação natural da pessoa. É preciso descobrir os caminhos em que Deus nos espera passar para nos dirigir a palavra. Às vezes Ele chama direta e imediatamente, mas às vezes dispõe de outras maneiras pelas quais se aproxima de nós utilizando meios normais, nos quais está presente como instigador e condutor de suas mediações. 
Como se distingue uma vocação autêntica de uma falsa vocação? 

O discernimento torna-se praticamente impossível para uma pessoa sozinha. Distinguir adequadamente a voz da Verdade no imenso concerto de vozes que freqüentemente ameaçam afogá-la é obra exclusiva de músicos muito habilidosos e de diretores muito experientes, e não simplesmente dos que gostam de fazê-lo. Daí a necessidade do acompanhamento vocacional. 

E a resposta? 

A resposta ao chamado de Deus só pode ser dada mediante a fé. Infelizmente esta é a dimensão da vocação em que mais se costuma falhar. Podemos pensar que responder a determinadas vocações ou estado de vida pode ser mais fácil que responder a outros, que consideramos mais agradáveis, enquanto há outros que consideramos difíceis e atemorizantes. Cada vocação se apresenta na vida de cada pessoa de modo único. Há pessoas que hesitaram em dar sua resposta, enquanto há outros que não hesitaram no primeiro “sim”, mas chegaram a abandonar o seguimento já começado. 

Há vocações mantidas a grande custo, em meio a abalos interiores e exteriores, algumas cujo seguimento chega a ser considerado verdadeiro martírio, assumido conscientemente, na independência em relação às forças contrárias, porque assim como conta com forças contrárias, conta com a mesma força, profunda e real para segui-la. 

“Há uma espécie de tensão de forças entre algo que luta por sair e se expressar na vida, e algo que se retrai diante da passagem decisiva”(5). Toda resposta vocacional exige muitas renúncias, e isto acontece muito claramente no estado de vida: quem escolhe o matrimônio renuncia ao celibato e vice-versa. A renúncia, vista de longe, às vezes nos parece maior do que a opção. Esta é uma dificuldade que se pode encontrar no momento da escolha e pode se tornar uma perseguidora ilusão a querer fazer com que retrocedamos do caminho escolhido, constituindo uma das mais dolorosas tentações. 

Qual a saída para este drama? 

A abertura à origem de toda vocação e estado de vida: nascemos do Amor, para o Amor e para amar a Deus e aos outros. “Pois ninguém de nós vive e ninguém morre para si mesmo, porque se vivemos é para o Senhor que vivemos, e se morremos é para o Senhor que morremos. Portanto, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,7-8). Aquele ou aquela que não está disposto ou disposta a abrir mão de viver para si mesmo, para colocar como prioridade o amor a Deus e o dom de si, não está preparado para escutar chamado algum, nem assumir vocação ou estado de vida algum dentro da Igreja. 

“Sem abertura, não é possível vocação alguma, que é dom e carisma que cada um recebe para utilidade comum”(6). É justamente na abertura e no serviço aos outros que a vocação vai se configurando e a nossa resposta vai se intensificando, apesar dos atritos, e, dizendo melhor, justamente por causa dos atritos. 

Por isso, antes de responder a qualquer vocação, é necessário a disposição de sair do egocentrismo que destrói toda forma de autodoação. Não existe realização vocacional onde não ocorra esta determinação. Para aqueles que receberam uma educação onde se cultivou como valores prioritários o ter, o poder e o prazer, torna-se muito mais difícil acolher uma vocação que se apresenta como caminho oposto a estes valores, e perseverar nela até o fim. É aí que a formação para o amor contribui para o crescimento das vocações e a qualidade dos vocacionados, seja qual for o chamado de Deus para eles. 

Deus é o Amor que envolve inteiramente a nossa vida, e no qual precisamos “mergulhar” cada dia mais, para encontrarmos a vida plena, a vida feliz! Perder-se em Deus é encontrar-se cada dia mais. Se tivermos sempre isto em mente não teremos medo de dizer “sim”, nem voltaremos atrás no “sim” pronunciado, mas ao contrário, nosso “sim” será sempre mais forte e profundo, para abranger os novos desafios que cada dia Deus nos propõe através da nossa vocação e estado de vida. 

Notas bibliográficas: 
1- Dicionário de Vida Consagrada. São Paulo: Paulus, 1994, p.1143. 
2- Ibidem, p.1143 
3- Declaração Persona Humana, n. 7; Cat 2392. 
4- Cat 1260. 
5- Dicionário de Espiritualidade. São Paulo: Paulus, 1993, p.1191. 
6- Ibidem, p.1192. - See more at: http://www.comshalom.org/formacao/exibir.php?form_id=1111#sthash.iry7NB00.dpuf

domingo, 1 de julho de 2012

Como Temos Rezado?


Os conteúdos da oração, como os de todo diálogo de amor, podem ser múltiplos e variados. Cabe, no entanto, destacar alguns especialmente significativos: 

Petição

É frequente a referência à oração impetratória ao longo de toda a Sagrada Escritura; também nos lábios de Jesus, que nos convida a pedir, encarecendo o valor e a importância de uma prece singela e confiada. A tradição cristã reiterou esse convite, pondo-a em prática de muitas maneiras: petição de perdão, petição pela própria salvação e pela dos demais, petição pela Igreja e pelo apostolado, petição pelas mais variadas necessidades, etc.

De fato, a oração de petição faz parte da experiência religiosa universal. O reconhecimento, ainda que em ocasiões difusas da realidade de Deus (ou mais genericamente de um ser superior), provoca a tendência a dirigir-se a Ele, solicitando Sua proteção e Sua ajuda. Certamente, a oração não se esgota na prece, mas a petição é manifestação decisiva da oração, assim como reconhecimento e expressão da condição criada do ser humano e de sua dependência absoluta de um Deus cujo amor a fé nos dá conhecer de maneira plena (cf. Catecismo, 2629.2635).
Ação de graças

O reconhecimento dos bens recebidos e, através deles, da magnificência e misericórdia divinas, impulsiona a dirigir o espírito a Deus para proclamar e lhe agradecer seus benefícios. A atitude de ação de graças, cheia desde o princípio até o fim a Sagrada Escritura e a história da espiritualidade. Uma e outra põem de manifesto que, quando essa atitude arraiga na alma, dá lugar a um processo que leva a reconhecer como dom divino todos os acontecimentos, não somente aquelas realidades que a experiência imediata acredita como gratificantes, mas também as aparentemente negativas ou adversas. 
Consciente de que o acontecer está situado sob o desígnio amoroso de Deus, o fiel sabe que tudo redunda no bem de quem – a cada homem – é objeto do amor divino (cf. Rm 8,28). São José Maria Escrivá ensina que: “Habitua-te a elevar o coração a Deus em ação de graças muitas vezes ao dia. - Porque te dá isto e aquilo. - Porque te desprezaram. - Porque não tens o que precisas, ou porque o tens. Porque fez tão formosa a sua Mãe, que é também tua Mãe. - Porque criou o Sol e a Lua e este animal e aquela planta. - Porque fez aquele homem eloqüente e a ti te fez difícil de palavra... Dá-Lhe graças por tudo, porque tudo é bom.”

Adoração e louvor 

É parte essencial da oração reconhecer e proclamar a grandeza de Deus, a plenitude de seu ser, a infinitude de sua bondade e de seu amor. Ao louvor pode-se desembocar a partir da consideração da beleza e magnitude do universo, como acontece em múltiplos textos bíblicos (cf., por exemplo, Sal 19; Se 42, 15-25; Dn 3, 32-90) e em numerosas orações da tradição cristã; ou a partir das obras grandes e maravilhosas que Deus opera na história da salvação, como ocorre no Magnificat (Lc 1, 46-55) ou nos grandes hinos paulinos (ver, por exemplo, Ef 1, 3-14); ou de fatos pequenos e inclusive miúdos nos que se manifesta o amor de Deus. 

Em todo caso, o que caracteriza o louvor é que nele o olhar vai diretamente a Deus mesmo, tal e como é em si, em sua perfeição ilimitada e infinita. O louvor é a forma de oração que reconhece o mais imediatamente possível que Deus é Deus! Canta-o pelo que Ele mesmo é, dá-lhe glória, mais do que pelo que Ele faz, por aquilo que Ele é. (Catecismo, 2639).

Está, por isso, intimamente unida à adoração, ao reconhecimento, não só intelectual, mas existencial, da pequenez de tudo criado em comparação com o Criador e, em consequência, à humildade, à aceitação da pessoa indignada ante quem nos transcende até o infinito; à maravilha que causa o fato de que esse Deus, ao que os anjos e o universo inteiro rendem homenagem, dignou-se não só a fixar seu olhar no homem, mas habitá-lo; mais ainda, a se encarnar. 

Adoração, louvor, petição e ação de graças resumem as disposições de fundo, que informam a totalidade do diálogo entre o homem e Deus. Seja qual for o conteúdo concreto da oração, quem reza o faz sempre, de uma forma ou de outra, explícita ou implicitamente, adorando, louvando, suplicando, implorando ou dando graças a esse Deus ao qual reverencia, ao qual ama e no qual confia. Importa reiterar, ao mesmo tempo, que os conteúdos concretos da oração poderão ser muito variados. 

Em ocasiões se irá à oração para considerar passagens da Escritura, para aprofundar em alguma verdade cristã, para reviver a vida de Cristo, para sentir a proximidade de Santa Maria. Em outras, iniciará a partir da própria vida para participar a Deus das alegrias e os afãs, das ilusões e dos problemas que o existir comporta; ou para encontrar apoio e consolo; ou para examinar ante Deus o próprio comportamento e chegar a propósitos e decisões; ou, mais singelamente, para comentar com quem sabemos que nos ama as incidências da jornada. 

Encontro entre o que crê e Deus em quem se apoia e pelo que se sabe amado, a oração pode versar sobre a totalidade das incidências que conformam o existir e sobre a totalidade dos sentimentos que pode experimentar o coração. Escreveste-me: “Orar é falar com Deus. Mas de quê?” - De quê? D'Ele e de ti: alegrias, tristezas, êxitos e fracassos, ambições nobres, preocupações diárias, fraquezas; e ações de graças e pedidos; e amor e desagravo. Em duas palavras: conhecê-Lo e conhecer-te - ganhar intimidade!”, ensinou São José Maria Escrivá. 

Seguindo uma e outra via, a oração será sempre um encontro íntimo e filial entre o homem e Deus, que fomentará o sentido da proximidade divina e conduzirá a viver a cada dia da existência de cara a Deus.

Fonte: Opus Dei

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Medo de Deus!

"Pai, chegou a hora. Glorifica teu filho, para que teu filho te glorifique, assim como deste a ele poder sobre todos, a fim de que dê vida eterna a todos os que lhe deste. Esta é a vida eterna: que conheçam a ti, o Deus único e verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que enviaste” (Jo 17, 1-3).
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“Qual é o teu nome? – Moisés! O que pedes à Igreja de Deus? – A fé! E esta fé, o que te dará? – A vida eterna!” Assim começou a Celebração Eucarística em que um jovem estudante de vinte e um anos recebeu o Batismo, a Crisma e a Primeira Eucaristia. São os Sacramentos da Iniciação Cristã. Na mesma ocasião, seu irmão Henrique foi crismado. 



A Assembléia litúrgica era composta de adultos, jovens e uma centena de crianças, que participavam do Festival das Crianças promovido pela Comunidade Sementes do Verbo em Icoaraci, nesta nossa Arquidiocese de Belém. O sorriso e a firmeza com que ouvi estas respostas iniciais do Rito que presidi com alegria me fizeram refletir sobre o nosso contato e o nosso trato com Deus.O candidato à iniciação cristã ouviu a Palavra de Deus e antes do Batismo renunciou ao pecado, à divisão e ao demônio. Mergulhado na piscina batismal, dali saiu homem novo, foi ungido com o dom do Espírito Santo e admitido pela primeira vez à Ceia Eucarística. O sorriso continuava resplandecente, como, aliás, posso testemunhar nas muitas semelhantes celebrações a que presidi. Não havia tristeza, constrangimento, receio ou medo de Deus. Quem pede o Batismo não o faz para que alguém controle a sua vida, cerceando seus impulsos em busca de liberdade. Querer ser e viver como cristão eleva a alma humana, faz ser melhor e ser mais livre! 

Não somos, diante de pessoas que têm outras convicções, homens e mulheres complexados, como se o pensar e o viver mundano fossem melhores. Não há nada mais digno na existência do que fazer a oblação livre da própria liberdade diante de Deus. Vale recordar a palavra de Jesus: “Se permanecerdes em minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8, 31-32).

A Sagrada Escritura reflete o aprendizado de muitas gerações no contato com Deus, superando o medo diante da presença sagrada, que atrai e provoca muitas vezes estupor. Moisés, na montanha sagrada, iniciou seu caminho de intimidade com Deus. Mas começou tirando as sandálias numa terra santa, deu desculpas quando chamado à missão, enfrentou e superou as próprias inseguranças. Foi testemunha de grandes sinais e prodígios. No final, ficou o relacionamento pessoal: “O Senhor falava com Moisés face a face, como alguém que fala com seu amigo” (Ex 33,11). À morte, registra o Livro do Deuteronômio: “Nunca mais surgiu em Israel profeta semelhante a Moisés, com quem o Senhor tratasse face a face, nem quanto aos sinais e prodígios que o Senhor lhe mandou fazer no Egito, contra o Faraó, seus servidores e o país inteiro, nem quanto à mão poderosa e a tantos e tão terríveis prodígios que Moisés fez à vista de todo o Israel” (Dt 34, 10-12). Elias, cujo ministério representa todo o profetismo do Antigo Testamento, também passou pelo aprendizado do contato com Deus. Vento impetuoso, terremoto, fogo, brisa suave. É diante da brisa leve que ele cobriu o rosto com o manto, saiu e pôs-se à entrada da gruta (cf. I Rs 19,9.11-13). Deus não é encontrado na agitação interior ou exterior, mas quer ouvir e ser ouvido!

Os discípulos de Jesus (cf. Mt 14, 22-33) escutaram do Senhor palavras consoladoras: “Coragem! Sou eu! Não tenhais medo!” e Pedro, tão parecido conosco, é chamado fraco na fé para se tornar rocha! Aprendeu a viver e deu sua vida por Jesus.

Nossa história é parecida com as aventuras dos heróis da fé. Não nascemos heróis, mas podemos, com a graça de Deus, vencer as sombras interiores que nos apavoram. Não custa acender a luz! E a Palavra de Deus é luz para o nosso caminho! E muitas pessoas, ao nosso redor, estão suplicando que sejamos iluminados por Aquele que é Luz do mundo, quais luzeiros que transformam em dia claro as sendas que percorrem.

D. Alberto Taveira
Arcebispo de Belém do Pará

domingo, 24 de julho de 2011

A Via da Vontade de Deus


“Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus” Rm 8,28

Amados irmãos e irmãs, Deus nos ama e este amor supera tudo, suporta tudo, pois Ele quer a vida do homem, não sua morte. Precisamos acreditar nisso e viver intensamente esta verdade, correspondendo a este grande amor. Supliquemos a sabedoria Divina para discernir bem aquilo que agrada a Deus e assim, escolher a melhor parte que é obedecer a sua voz. Deste modo, iremos retribuir com Sua Graça, todo bem que o Senhor Deus fez em nosso favor.
Ser grato a Deus, é escolher aquilo que não passa, investindo toda a vida no que é Eterno. São muitas opções e inúmeros caminhos que surgem diante de nós, mas só uma via nos leva a felicidade plena: a via da vontade de Deus. Devemos, portanto, deixar para traz o que é transitório, desta forma, encontraremos o grande tesouro que verdadeiramente enriquece a nossa vida. Jesus é o grande tesouro! E Ele se deixa encontrar, nos concedendo a alegria do céu e plena satisfação.

Parece contraditório esta frase, mas não é: Deus se deixa encontrar, no entanto, nós devemos procurá-Lo. Esta busca de nossa parte revela o livre desejo de nosso coração pelo que é Eterno. Revela também, o estilo de vida que queremos neste mundo, o modo de viver as nossas relações com as pessoas e os bens temporários. Aquele que vive assim traz em si uma real segurança, mesmo diante dos acontecimentos trágicos da vida. Deus é nosso arrimo, e nos garante toda a força para prosseguirmos decididamente, sem nenhum receio e medo.

Somos escolhidos irmãos, fomos separados para Deus. E o que mais precisamos pedir para as nossas vidas é a sabedoria Divina. Saibamos viver! Colocando Jesus Cristo como o único Senhor de nosso Coração. Ele é o Amado de nossa Alma!

Deus abençoe a todos e que a Doce Mãe de Deus interceda a Jesus por nós.

Pe. José André CDMD

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A Sede de Jesus e a Samaritana

         
“Foi assim que Ele chegou a uma cidade da Samaria chamada Sicar, não longe da terra dada por Jacó a seu filho José, lá mesmo onde se acha a fonte de Jacó. Cansado da viagem, Jesus estava assim sentado junto à fonte. Era mais ou menos a sexta hora. Chega uma mulher da Samaria para tirar água; Jesus lhe disse: “Dá-me de beber”. Os seus discípulos, com efeito, tinham ido à cidade comprar o que comer. Mas esta mulher, esta Samaritana, lhe disse: “Como? Tu, um judeu, me pedes de beber a mim, uma mulher samaritana?” Os judeus, com efeito, não querem ter nada em comum com os samaritanos. Jesus lhe respondeu: “Se conhecesses o dom de Deus, e quem é aquele que te diz: ‘Dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias e ele te daria água viva” (Jo 4,5-10).

Estranha sede, a de Jesus diante do poço de Jacó! Quem pode compreender hoje que Deus Filho, o mesmo que transformou água em vinho necessitasse pedir a alguém que lhe desse de beber?

 Em seu escrito espiritual intitulado “Trago-vos o amor”, Madre Teresa de Calcutá apresenta-nos uma chave para penetrarmos neste mistério:

 “O mesmo Deus que declarara não ter necessidade de nos dizer que tem fome, não se priva de mendigar um pouco de água à Samaritana. Tinha sede, mas ao dizer ‘Dá-me de beber’, Ele, o Criador do universo pedia o amor de sua criatura” (Ed. Loyola, S. Paulo, 1981, pp. 87-88).

 O mundo tem sua origem em Deus e sua finalidade em Deus, que vive uma eterna Comunidade de Amor: entre o Pai o Filho e o Espírito Santo circula o amor que deu origem a todas as coisas, e, em especial, a nós, criaturas humanas. Dentre todas as obras da criação somos as únicas criaturas criadas diretamente para Ele, que criou o mundo para nós; mas nós fomos criados para Ele. Fomos criados para estar sempre unidos a Deus e crescer nesta união até chegarmos à sua plenitude.

Entretanto, o pecado surgiu como primeiro obstáculo a este maravilhoso desígnio de Deus para o homem. O pecado é, desde o início, a origem da ruptura brutal entre nós e Deus.

Esta ruptura aconteceu não por vontade de Deus, mas por vontade da própria criatura, de uma decisão de sua liberdade. Instigada pelo Demônio, a criatura humana rejeitou seu Criador na ilusão de gerir sua própria vida de modo independente dele. A partir de então, a história humana com Deus passou a ser uma história de encontros e desencontros, procura de Deus por nós e escondimento de nossa parte.

Narram as Escrituras que quando o primeiro homem pecou, escondeu-se de Deus, que o chamou: ‘Onde estás?’ e ele respondeu: ‘Ouvi tua voz no jardim, tive medo porque estava nu, e me escondi.’(Gn 3,9-10).
         Esta narrativa do Livro do Gênesis, colocada logo após o pecado original, deixa transparecer que Deus nos busca desde o início. As Escrituras são o belíssimo testemunho escrito desta busca de Deus por nós: Desde que o primeiro homem se escondeu dele, assim como chamou Adão, Ele nos chama. Chamou Abrão, chamou Isaac, chamou Jacó, chamou José, chamou Moisés, os juízes, os reis, os profetas, chamou a mim e a você e das mais diversas formas continua a nos buscar, porque tem sede de fazer retornar a criatura humana à união com Ele.
       Deus sempre buscou a criatura humana, Deus sempre nos buscou. Deus nos buscou ainda quando nem havíamos ouvido falar dele, ou quando mesmo tendo ouvido éramos ainda inteiramente indiferentes ao seu amor. Deus nos busca quando pecamos e cada vez que nos desviamos de sua vontade amorosa, como filhos pródigos que deixam a casa do Pai em busca de nossos próprios caminhos, em busca de “sermos como deuses” (cf. Gn 3,5).
Deus nos busca quando estamos acomodados na nossa fé, indiferentes ao seu chamado de nos comprometermos sempre mais com Ele. Deus nos busca quando estamos alegres para se alegrar conosco e também quando estamos tristes para unindo nossa dor à dele tornar o nosso fardo mais leve.
 Deus nos busca das mais diversas formas, porque tem sede de resgatar-nos, de salvar-nos, de fazer-nos plenamente felizes. Ele tem sede de que sejamos libertos das seqüelas do pecado e curados das feridas que os vícios nos causam. Ele tem sede de que nos tornemos, nele, fortes contra toda tentação, e cheguemos a ser santos, porque Ele tem sede nós!
         O pecado foi derrotado por Cristo na Cruz, de modo que pelo Batismo somos feitos livres dele e aparelhados com a Graça para que nossa união com Deus seja restaurada, mas permanecemos livres e podemos recair nele se usamos mal nossa liberdade. As nossa más escolhas nos levam freqüentemente a nos esconder de Deus e por isso Ele nos busca. Este que é o acontecimento mais freqüente na história da nossa conversão pode se repetir durante toda a nossa vida, porque Deus não desiste de nós.
     O inimigo de Deus nos tenta de todas as formas para que ignoremos ou desconfiemos disto. A uns Ele tenta na imaginação, afetividade e memória para que duvidem de que Deus existe, ou que, se existe é indiferente a nós. A outros tenta para fazer pensar que Deus não nos ama, mas quer nos escravizar nos fazendo marionetes suas, escravos seus. Isto não é verdade. Tanto que Ele enviou a nós seu Filho único para nos fazer, não servos, mas amigos seus. Jesus disse isto pouco antes de entregar sua vida por nós: “Já não vos chamo servos, mas amigos”(cf. Jo 15,15).
          Para combater tudo isto, precisamos freqüentemente deixar-nos encontrar por Ele, deixar que a luz da sua presença nos leve a reconhecer o que, de fato nos escraviza e deixar que Ele nos arranque de nossas escravidões, para que sejamos livres e verdadeiramente felizes.
          Foi isto o que aconteceu com a mulher samaritana. Da forma mais estranha, ela foi encontrada por Jesus e aceitou dialogar com Ele. Jesus se aproximou de uma mulher samaritana, o que era coisa absurda para um judeu, num momento aparentemente impróprio e numa situação aparentemente imprópria, para pedir-lhe de beber.
       Algo semelhante pode estar acontecendo comigo e com você neste momento. Deus pode estar se chegando a nós através da situação aparentemente mais imprópria, porque nos quer, porque anseia por nós independentemente do que sejamos, possuamos ou tenhamos feito. Por isto nos busca para lançar luz sobre nossa vida e nos fazer enxergar o que é bom e o que é mau para nós, porque isto só Ele sabe e pode nos dizer.
Ao encontrar Jesus, pouco a pouco a mulher samaritana foi compreendendo que se Ele tinha sede da água que ela podia oferecer, ela tinha sede da água que dura para sempre e desta água somente Ele tinha para lhe oferecer: “Dá-me desta água para que eu não venha mais a este poço tirá-la”.
Então tudo adquiriu sua verdadeira dimensão: seus falsos amores perderam todo o valor diante daquele que conhecia tudo sobre ela, e lhe oferecia o amor como uma fonte que jorra para a vida eterna.
Nesta Palavra vimos o encontro de duas sedes, a sede de Deus pelo amor da sua criatura, e a sede da criatura pelo infinito amor de Deus! Jesus veio unir em si estas duas sedes, e se por Ele nos deixamos encontrar, dele nos tornamos adoradores em espírito e em verdade, ambas serão saciadas.
Todos os dias temos oportunidade de encontrar o Senhor diante do “poço”: podemos encontrá-lo nos sacramentos, especialmente na reconciliação e na Eucaristia; podemos encontrá-lo na sua Palavra; no encontro com seus ministros, os sacerdotes; na oração pessoal íntima com Ele; na oração em comum com nossos irmãos; numa palavra sábia dita por alguém que está disposto em Deus, a nos ajudar, e o faz segundo a Palavra de Deus e o ensinamento da Igreja. E há também uma situação especial, na qual podemos encontrá-lo, quando em Deus, nos dispomos a servir aqueles que Ele coloca em nosso caminho como necessitados de ajuda. Essas pessoas ou situações, as quais aparentemente só damos sem receber, podem ser hoje aqueles canais de muita graça, que o Senhor usa para saciar-se de nós e nos saciar dele.
Deixemos-nos encontrar com Jesus, de coração aberto para que sejam saciadas a nossa e a sede dele, e então o mundo conhecerá que Ele está vivo e é o único Senhor! 
Falando à samaritana, dissestes: “Quem beber da água que eu der, jamais terá sede”. Oh! Como são reais e verdadeiras estas palavras pronunciadas por vós. Verdade eterna! Sim, quem bebe daquela água, já não terá sede de coisa alguma terrena, mais ficará muito mais sequioso das coisas do céu. É um tormento de que mal se pode fazer idéia pela sede natural, neste mundo. Com que ansiedade, Senhor, desejo esta sede, pois seu alto valor me fazeis compreender! (cf. Caminho 19,2)

Ana Carla Bessa
Comunidade Católica Shalom

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Nas Mãos do Oleiro


A Sagrada Escritura utiliza-se de inúmeras figuras e expressões para revelar Deus e o Seu modo peculiar de agir na história. Entre estas descrições quero destacar a imagem do oleiro, fortemente acentuada pelo profeta Jeremias (cf. Jer 18,1-6ss).

Nestes versículos apresentados pelo profeta, a manifestação divina é expressa com a figura de um oleiro, que molda como a argila aqueles que Lhe pertencem. Esta descrição é rica em expressão e em significado, pois desvela a ação e o amor do Eterno, possibilitando-nos compreender o "singelo jeito" com que Ele nos acompanha e faz crescer.

Este Oleiro sabe, melhor que nós mesmos, do que realmente precisamos e o que nos fará essencialmente felizes. Sua ternura nos convida ao abandono total aos Seus cuidados, os quais sempre nos proporcionarão o melhor, mesmo quando não formos capazes de compreender Seu distinto modo de agir. Por isso, para caminhar no território da fé, a confiança se estabelece como realidade mais necessária do que a compreensão… Uma confiança "filial" de alguém que se descobre amado e cuidado e que, por isso, crê que o Oleiro está sempre agindo e realizando o que é melhor para seus dias.
De fato, este Oleiro enxerga além. Ele contempla as surpresas que ao futuro pertencem e, na Sua Divina Providência, cuida de nós: ora retirando de nosso caminho o que nos é prejudicial, ora acrescentado algo àquilo que nos falta. Isso nos desautoriza a pretensão de querer condicionar a ação de Deus à nossa limitada maneira de enxergar e compreender as coisas, antes, nos confessa que é preciso confiar naquilo que Ele faz e em Seu modo particular de fazê-lo.
A confiança nos abre à percepção de que Deus sabe retirar excessos e acrescentar às ausências no momento certo. Sabe o que realmente nos fará crescer e amadurecer (e crescer às vezes dói). E maduro é quem sabe perder sem apegos, para que assim possa ser despojado do que não lhe é essencial e acrescentado no que realmente lhe falta.

Não existe arte sem amor, quadro sem pintor, vaso sem oleiro… Obra mais bela é a que se constrói pelas mãos do artista, do Oleiro. Só Ele traz em Seu coração os belos sonhos que poderão retirar um rude barro de sua "não existência".
O barro não pode se moldar a si mesmo. Para vir a ser, ele precisa confiar-se aos sonhos e à sensibilidade do oleiro, pois as mãos dele comportam a medida certa, entre firmeza e delicadeza, para trabalhar esta substância abstrata transformando-a em uma linda obra de arte.

Da mesma forma, não existe parto sem dor, maturidade sem perdas, felicidade sem se  ater ao essencial. É necessário confiar n’Aquele que nos molda, e mesmo quando a firmeza de Suas mãos parecer pesar demais sobre nós, confiemo-nos à Sua iniciativa e criatividade, que sempre realizará em nós o que é melhor.
A felicidade faz morada em nosso coração à medida que nos assumimos como aquilo que realmente somos: “Barro, apenas barro, nas mãos do Oleiro!”
Diác. Adriano Zandoná - Com. Canção Nova